Brasileiros na Ucrânia: cultura, adaptação e o impacto emocional de viver em um país em guerra
- Ed Pazinato

- 14 de abr.
- 3 min de leitura
Morar na Ucrânia é uma experiência que carrega muitas camadas.

Para brasileiros, pode significar um encontro com uma cultura diferente, com costumes mais reservados, com uma forma de viver que, muitas vezes, contrasta com a espontaneidade e o calor humano do Brasil.
E, além disso, existe um elemento que atravessa toda essa experiência:
a guerra.
Viver em um país que enfrenta conflitos não é apenas uma questão externa.
Isso impacta diretamente a forma como a pessoa sente, pensa e vive o cotidiano.
A cultura ucraniana e a forma de se relacionar
A cultura ucraniana tende a ser mais reservada e estruturada nas relações sociais.
As pessoas, em geral, não se abrem rapidamente.
Existe uma valorização da discrição, da cautela e de uma certa formalidade, especialmente com quem não faz parte do círculo próximo.
Para brasileiros, isso pode ser percebido como frieza.
Mas, muitas vezes, não se trata de rejeição — e sim de uma forma diferente de construir vínculos.
As relações podem demorar mais para se desenvolver, mas tendem a ser profundas quando se consolidam.
A dificuldade de adaptação

Para quem vem de uma cultura mais afetiva e espontânea, como a brasileira, esse ritmo pode ser desafiador.
A ausência de interações mais calorosas no dia a dia pode gerar sensação de distância.
Pequenos gestos que, no Brasil, são comuns — como conversas informais, proximidade física ou demonstrações emocionais — podem não acontecer da mesma forma.
E isso pode fazer com que a pessoa se sinta deslocada.
Como se não soubesse exatamente como se posicionar naquele ambiente.
Viver sob o impacto da guerra
Além das diferenças culturais, existe a experiência de viver em um país em guerra.
Mesmo quando o conflito não está acontecendo diretamente ao redor, a sensação de ameaça pode estar presente.
Notícias, relatos, mudanças na rotina, alertas.
Tudo isso contribui para um estado constante de atenção.
Sigmund Freud já apontava que a angústia pode surgir não apenas de um perigo imediato, mas da antecipação de algo que pode acontecer.
E, nesse contexto, essa antecipação pode se tornar parte do dia a dia.
A ansiedade de viver em um ambiente instável
Viver em um cenário de guerra pode gerar uma ansiedade contínua.
Não necessariamente intensa o tempo todo, mas constante.
Como um fundo emocional que não desaparece.
Melanie Klein contribui ao mostrar como experiências de ameaça podem ativar sentimentos primitivos de insegurança e medo.
A pessoa pode sentir que o ambiente ao seu redor não é totalmente seguro.
E isso impacta diretamente sua forma de viver.
O impacto no mundo interno

Carl Jung falava sobre como experiências coletivas intensas também afetam o mundo interno.
A guerra não é apenas um evento externo.
Ela atravessa o imaginário, os medos, as percepções.
Pode gerar pensamentos recorrentes, inquietação, dificuldade de relaxar.
Mesmo em momentos de aparente tranquilidade.
Solidão e sensação de não pertencimento
Somando a cultura diferente e o contexto de guerra, muitos brasileiros podem sentir uma solidão mais intensa.
Não apenas pela distância da família.
Mas pela dificuldade de criar vínculos e pela sensação de estar em um lugar onde tudo ainda é estranho.
A pessoa pode se sentir deslocada, como se não pertencesse completamente àquele ambiente.
A importância de encontrar espaços de acolhimento

Nesse contexto, encontrar espaços de acolhimento faz diferença
.
Grupos de brasileiros, comunidades, pessoas que compartilham a mesma língua e experiências semelhantes podem ajudar a reduzir a sensação de isolamento.
Esses encontros oferecem algo importante: reconhecimento.
A possibilidade de ser compreendido sem precisar explicar tudo.
Como a psicoterapia pode ajudar
A psicoterapia pode ser um espaço fundamental para quem vive essa experiência.
Um lugar onde é possível falar sobre o medo, a adaptação, a solidão e o impacto emocional de viver em um contexto tão diferente.
Durante o processo terapêutico, é possível:
compreender melhor a ansiedade relacionada ao contexto externo
elaborar os medos ligados à guerra
lidar com a sensação de não pertencimento
desenvolver recursos emocionais para a adaptação
construir uma sensação maior de estabilidade interna
Mais do que lidar com o ambiente, a terapia ajuda a fortalecer o mundo interno.
Entre o externo e o interno
Viver na Ucrânia, especialmente em tempos de guerra, é uma experiência que exige muito emocionalmente.
Existe o que está fora — a cultura, o contexto, a instabilidade.
E existe o que está dentro — os sentimentos, os medos, a forma de lidar com tudo isso.
Cuidar desse espaço interno é essencial.
Um caminho possível
Mesmo em um contexto difícil, é possível construir formas de viver com mais equilíbrio.
Buscar apoio, reconhecer os próprios limites e se permitir falar sobre o que sente são passos importantes.
Você não precisa enfrentar isso sozinho.
Ed Pazinato – Psicólogo
Atendimento psicológico online para brasileiros que vivem no exterior.
Referências e fontes
Sigmund FreudInibição, Sintoma e Angústia
Melanie KleinInveja e Gratidão
Carl JungO Eu e o Inconsciente




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