Medo da guerra e saúde mental: como a ameaça constante afeta o equilíbrio emocional
- Ed Pazinato

- 14 de abr.
- 3 min de leitura
Nos últimos anos, a presença de conflitos armados no cenário internacional voltou a ocupar espaço no cotidiano das pessoas. Notícias, imagens e discursos sobre guerra passaram a fazer parte da rotina, especialmente para quem vive na Europa ou em regiões próximas a áreas de tensão.

Mesmo quando o conflito não acontece diretamente no país onde a pessoa vive, a sensação de ameaça pode ser suficiente para gerar impacto emocional.
O medo da guerra não é apenas um pensamento racional sobre risco. Ele pode se transformar em uma experiência psíquica intensa, que afeta a forma como a pessoa sente, pensa e vive o dia a dia.
O medo como experiência psíquica
O medo é uma resposta natural diante de situações percebidas como perigosas. No entanto, quando essa sensação se torna constante, difusa e difícil de localizar, ela pode gerar sofrimento emocional.
Sigmund Freud já apontava que a angústia não está apenas ligada a um perigo real, mas também àquilo que é vivido internamente como ameaça.
Em contextos de guerra, essa ameaça pode não ser imediata, mas é constantemente evocada — seja por notícias, discursos políticos ou pela sensação de instabilidade.
Isso faz com que o medo deixe de ser pontual e passe a ocupar um lugar contínuo na experiência psíquica.
A sensação de ameaça constante
Para quem vive em regiões próximas a conflitos, o medo pode assumir uma forma mais difusa.
Não se trata apenas de um evento específico, mas de uma expectativa de que algo pode acontecer a qualquer momento.

Jacques Lacan contribui para essa compreensão ao abordar a angústia como algo que surge quando não conseguimos nomear exatamente o que nos ameaça.
A guerra, nesse sentido, pode funcionar como esse elemento difícil de simbolizar completamente.
A pessoa sente, percebe, se inquieta — mas muitas vezes não consegue organizar esse medo em palavras claras.
O impacto no cotidiano
Com o tempo, esse estado de alerta pode afetar diferentes áreas da vida.
Mesmo sem uma ameaça direta, o corpo e a mente podem reagir como se fosse necessário estar preparado para um perigo iminente.
Podem surgir experiências como:
ansiedade constante
dificuldade de concentração
alterações no sono
irritabilidade
sensação de insegurança
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, contextos de instabilidade e ameaça coletiva estão associados ao aumento de quadros de ansiedade e sofrimento psíquico, mesmo em populações que não estão diretamente expostas ao conflito.
O sentimento de desamparo
Um dos aspectos mais marcantes do medo da guerra é o sentimento de falta de controle.
Donald Winnicott destacou a importância do ambiente na construção da sensação de segurança emocional.

Quando o ambiente é percebido como instável ou ameaçador, pode surgir uma experiência de desamparo.
No contexto atual, esse desamparo pode aparecer como a percepção de que não há muito o que fazer diante de algo tão grande quanto um conflito internacional.
E isso pode gerar angústia.
Informação constante e sobrecarga emocional
Outro fator importante é o excesso de informação.
O acesso contínuo a notícias, imagens e análises sobre conflitos pode intensificar a sensação de medo.
Segundo dados do Office for National Statistics, houve aumento significativo de relatos de ansiedade em períodos de maior exposição a notícias relacionadas a crises globais.
A repetição dessas informações pode manter o corpo em estado de alerta, dificultando o descanso psíquico.
Quando o medo se torna silencioso
Nem sempre o impacto aparece de forma evidente.
Em muitos casos, o medo da guerra se manifesta de maneira mais sutil: como um desconforto constante, uma inquietação ou uma sensação de que algo não está bem.

A pessoa segue sua rotina, trabalha, se organiza — mas internamente sente uma tensão difícil de explicar.
E, muitas vezes, não associa diretamente isso ao contexto externo.
Como a psicoterapia pode ajudar
A psicoterapia pode ser um espaço importante para elaborar esse tipo de experiência.
Falar sobre o medo, nomear sensações e compreender o impacto do contexto externo na vida interna pode ajudar a reduzir o sofrimento.
O processo terapêutico pode auxiliar a:
compreender a origem da angústia
diferenciar ameaça real e percepção interna
desenvolver recursos emocionais
reduzir o estado de alerta constante
recuperar uma sensação de segurança interna
Mais do que eliminar o medo, a terapia ajuda a dar forma a ele — e, com isso, torná-lo mais possível de ser vivido.
Cuidar da saúde mental em tempos de incerteza
Viver em um contexto de instabilidade global pode ser emocionalmente desafiador.

Reconhecer o impacto dessas situações na saúde mental é um passo importante.
Buscar equilíbrio na exposição a informações, cuidar da rotina e permitir-se falar sobre o que sente são formas de preservar o bem-estar.
Mesmo diante de um cenário incerto, é possível construir formas mais estáveis de viver internamente.
Ed Pazinato – Psicólogo
Atendimento psicológico online para brasileiros que vivem no exterior.
Referências e fontes
Sigmund FreudInibição, Sintoma e Angústia.
Jacques LacanSeminário 10: A Angústia.
Donald WinnicottO ambiente e os processos de maturação.
Organização Mundial da SaúdeMental health and psychosocial support.
Office for National StatisticsPersonal well-being and anxiety data.




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